Luto pela verdade

Uma coisa está muito clara nessas eleições: tá impossível dialogar!

O termo “fake news” simplesmente perdeu seu significado. Não significa mais “notícia falsa”, mas sim “notícia que eu não concordo” ou então “notícia que não condiz com o que acredito”. E um dos lados que está disputando esse pleito no segundo turno está explorando isso ao MÁXIMO.

Esse grupo, que está extremamente radicalizado, não consegue aceitar nenhuma informação que não surja de dentro da própria bolha ou que seja trazida por algum de seus líderes… E o simples fato de você já estar lendo isso com uma ideia clara de qual grupo estou falando é um sintoma.

Não se engane! Os outros não tiveram a mesma leitura que você.

O principal motivo disso é algo que está em alta nos últimos anos: Inteligência Artificial. Mas bem longe de ChatGPT, Claude, Gemini, DeepSeek, Qwen… As IAs responsáveis por esse cenário são os algoritmos das redes sociais.

Sim, os sistemas de recomendação das redes são uma forma de IA! E acredito que estão entre os mais bem-sucedidos, tá? Eles conseguiram a proeza de transformar a nossa atenção no petróleo do século XXI.

A missão principal deles é uma só: manter você na plataforma o máximo de tempo possível para coletar o máximo de informações sobre a sua vida e sua personalidade.

Por quê? Porque assim conseguem montar uma versão virtual sua e mostrar posts, anúncios, produtos e serviços que parecem irresistíveis! Quase mágicos.

Quem nunca passou pela experiência de PENSAR em comprar alguma coisa, ficar na dúvida se valia o gasto e… de repente no feed surge um vídeo listando as vantagens e desvantagens daquilo, um anúncio com uma promoção imperdível, um influenciador dizendo que o produto/serviço mudou a vida dele e um amigo fazendo exatamente o que você estava pensando em fazer?

Não é coincidência.

Toda essa personalização torna o feed irresistível e o que aparece para você não é a mesma coisa que aparece para o seu amigo, seu irmão, sua mãe, sua avó…

E esse nem é o maior problema, tá? Com essas versões virtuais e sintetizadas de nós, os algoritmos conseguem PREVER e até ESTIMULAR sentimentos, comportamentos e ações na vida offline.

Lembra do escândalo da Cambridge Analytica? Foi basicamente isso! Usaram esse sistema para mapear e manipular grupos de pessoas com predisposições ‘x’ ou ‘y’, fazendo com que se alinhassem ideologicamente ao perfil de quem contratou o serviço.

É a maior máquina de manipulação em massa da história da humanidade.

Agora, junte tudo isso ao fato de que o brasileiro passa cerca de NOVE HORAS E MEIA por dia na frente de uma tela e pronto: temos os ingredientes para um desastre.

Ninguém mais vive no mesmo planeta. Cada um é o único habitante de um mundo artificial moldado a partir dos próprios interesses. Não vemos mais o mesmo horizonte!

A realidade passa pela tela e, como uma lente, ela é filtrada sob medida para cada um de nós. Distorcendo partes diferentes do mundo dependendo de quem observa.

Alguém fala “comunismo” e cada pessoa entende uma coisa diferente a partir dessa palavra. A mesma coisa para “capitalista”, “petista”, “empresário”, “bolsonarista” e por aí vai.

Foi assim que a verdade foi morta: esvaziando os significados, pulverizando os sentidos e distorcendo a narrativa por trás de cada discurso, proposta, manchete, imagem, palavra…

É por isso que está impossível dialogar. Ninguém mais fala a mesma língua! A falta de um denominador comum, de um sentido compartilhado, faz com que ninguém mais entenda ninguém.

A verdade morreu, e por isso estou de luto.

Mas é por isso também que ainda luto.

Independente dos filtros e distorções que colocam sobre ela, a realidade ainda está lá fora! Ela está no jantar que você faz com sua família, nos amigos que você reencontra, na viagem que te faz mudar de perspectiva… No futuro que você acredita e que quer ajudar a construir.

Não terceirize seu pensamento: PESQUISE, QUESTIONE, DUVIDE e NÃO TENHA MEDO DE ESTAR ERRADO.

Não tenho a pretensão de mudar o voto de ninguém, nessa altura do campeonato a maioria já sabe muito bem em quem vai votar.

Mas, por favor… Não deixe que pensem por você.

Vote pelo país que você quer construir para o futuro.

Vote no projeto de país que, apesar de todas as suas falhas, ainda defende um chão comum que encontramos quando desligamos a tela do celular.

Vote para construir um futuro onde a ciência, as instituições e o diálogo entre a pluralidade de ideias sejam possíveis, e não em quem fabrica realidades paralelas dependendo de quem está ouvindo.

Amanhã, vote 13.

Por Augusto Nunes · augusto@multiversocial.blog

Topa embarcar nessa comigo?

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