A Pandemia da Simplificação: Ficamos imunes à complexidade?

Uma das coisas mais graves que a situação da Venezuela nos revela, pelo menos no campo das ideias, é a de que a complexidade morreu junto com a verdade.

Segundo diversos filósofos, sociólogos e pensadores, vivemos na era da pós-verdade: a veracidade dos fatos não importa mais; o que importa é como o fato me faz sentir e se ele confirma a minha visão de mundo. Isso, em tempos de inteligência artificial e feeds comandados por algoritmos, é ainda mais amplificado. As pessoas estão se prendendo em “câmaras de eco” onde consomem apenas aquilo que as valida. É um ciclo muito difícil de ser quebrado e funciona quase como uma “vacina” contra a diversidade de ideias.

A repercussão do que aconteceu em Caracas na madrugada do dia 3 de Janeiro de 2026 exemplifica muito bem isso.

Dois erros não fazem um acerto

Sim, a Venezuela estava vivendo sob um regime autoritário de um líder populista e com processos eleitorais no mínimo questionáveis. Mas isso não dá carta branca para uma potência estrangeira sequestrar o líder de lá e submetê-lo ao julgamento de suas próprias leis e constituição, como se a Venezuela não tivesse as suas.

Isso é sequestrar a independência de um país, não libertar um povo de um regime autoritário. Na prática, saiu um líder autoritário para entrar outro, só que de outro país.

A situação da Venezuela é dúbia, complexa e densa. Por isso precisa de explicações tão complexas, mas vejo muitos caindo em uma narrativa simplista e rasa de “bem contra o mal”, como se estivéssemos assistindo a uma novela das nove em vez do noticiário. É bizarro!

É sobre quem fez, não sobre o que foi feito

Vamos fazer um exercício mental simples: imagine que Bolsonaro foi eleito em 2022 e Xi Jinping, presidente da China, o acusou de fraude e de estar enviando carne com esteroides para o povo chinês. Por conta disso, ele comanda uma ação contra o Brasil, prende o presidente e sua família, começa a governar o país e coloca todas as criações de gado e plantações de soja sob o comando de empresas chinesas. Bolsonaro, um presidente de outro país, que possui sua própria constituição e leis distintas, agora vai passar por um julgamento na China, sob as leis chinesas.

É só trocar as peças: Trump prendeu Maduro e sua mulher, o acusou de fraude e narcotráfico, colocou o petróleo venezuelano sob o controle de empresas dos Estados Unidos e comandará a nação “até sua transição”. Foi exatamente isso que aconteceu na Venezuela.

Trump mantém alianças e boas relações com governos tão questionáveis quanto o de Maduro, mas, por fazerem suas vontades, eles são considerados “bonzinhos” e não são alvos de intervenções militares como essa.

Muitos que estão apoiando a invasão só fazem isso porque aconteceu com Maduro. Mas o que está em jogo não é o governo dele ou seu regime: é a existência da Venezuela como um país independente e não como um território “semi-autônomo” sujeito aos EUA.

É isso o que a ONU, a jurisdição internacional e até aliados estão defendendo: a soberania venezuelana.

“… mas tem venezuelano comemorando!”

Tem quem apoie também porque viu venezuelano comemorando, mas essa argumentação não faz sentido. Se a tentativa de golpe de 8 de Janeiro de 2023 tivesse dado certo por aqui, também teria muita gente comemorando, mas isso não validaria a ação e muito menos a tornaria benéfica ao país!

Um país possui divergências, oposições e visões diferentes de mundo. O povo brasileiro não pensa todo da mesma maneira, certo? O povo venezuelano também não! O que deixaram bem claro nessa operação foi que o povo não foi colocado na equação.

Em seu pronunciamento, Trump não falou sobre a vontade popular ou sobre a defesa da democracia, mas sobre a exploração dos recursos naturais da Venezuela pelos Estados Unidos. Principalmente seu petróleo.

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Não está sendo defendido aqui o governo ‘X’ ou ‘Y’, ou o regime ‘A’ ou ‘B’.

O que está sendo dito por todos os críticos à operação, inclusive estadunidenses, é que os EUA não tinham direito de fazer tal operação. Eles não são donos do mundo, e nós da América Latina não somos o seu quintal e não estamos sujeitos às suas leis. Temos as nossas próprias.

Somos países soberanos, ricos, diversos e complexos. Por mais que tenhamos nossos problemas e diferenças, eles são nossos. Não precisamos de um “papai” ou “mamãe” de fora para opinar sobre eles.

Procure ler e se informar sobre o assunto, desconfiando de quem simplifica demais o discurso. A complexidade da situação não cabe em um videozinho curto de menos de 2 minutos cheio de redundâncias em redes sociais.

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